segunda-feira, 19 de novembro de 2012

A homofobia mata


Esta é a quarta tentativa de começar este texto. Eu ainda estou tentando olhar isso e seguir em frente. Na verdade, eu não tenho muito o que escrever ou dizer. Este é apenas meu lamento. Eu gostaria de pegar esse caso isolado e transformar num grande manifesto político que reivindicasse eloquentemente os direitos humanos todo dia denegados pela nossa sociedade; gostaria de pensar que é um caso isolado, que não se trata de apenas mais um de milhares de assassinatos brutais que estão acontecendo inclusive agora; que não se trata de da consequência lógica do nossos valores torpes, que prefere ver dois homens com armas nas mãos a vê-los de mãos dadas; que prefere que as mulheres mantenham o silêncio enquanto são surradas física e espiritualmente, violentadas sexual e moralmente por seus maridos, pais, primos, tios, estranhos da rua, a vê-las pegando em bandeiras, queimando sutiãs, exibindo as mamas que são as bases da nossa espécie; que prefere pensar no nosso país como o país do futuro, sem racismo, sem ódio aos pobres, sem Pinheirinho, sem Wanessão, sem Lucas Fortuna, a encarar que NÓS SOMOS OS PAÍS QUE MAIS MATA POR HOMOFOBIA NO MUNDO! Mais do que a Rússia, que proíbe as paradas do orgulho e a marcha das vadias; mais do que o Irã, onde os gays tem duas opções: a mudança de sexo ou a forca; mais do que a China, o grande temor do Ocidente, que Deus nos livre! Uma sociedade que prefere ter crianças passando fome e desamparo nas ruas brutais das nossas metrópoles de indiferença a aceitar que dois homens ou duas mulheres possam adotá-las como filho. E eu me pergunto, Lucas Fortuna, por que?

Por quê?

Um amigo, a propósito do Caso Lucas Fortuna, me disse: a vontade é de lamentar mas a hora é de se agregar. Eu acho que a hora é de lamentar e de se agregar. Um de nós foi tirado do mundo por uma força que também nos espreita, que nos vigia e que, por fim, nos mata. Por isso, Lucas Fortuna é só mais um caso, é o caso e é todos os casos. Não é o primeiro. Não vai ser o último. Acho que nada impede que eu ou você ou algum amigo muito próximo ou um pai, um irmão, um antigo namorado, um desconhecido bêbado na rua, acho que nada impede que esse câncer escondido nos mate amanhã. Nada impediu que matasse a Lucas Fortuna, não é? Nessa hora, o medo, a revolta, a dor e o desespero se casam num e no mesmo sinistro sentimento. 

É a ameaça da extinção esse sentimento. Por isso, a morte de Lucas Fortuna não foi apenas a morte de Lucas Fortuna, mas a de cada um de nós. Cada um de nós, nós lésbicas, nós gays, nós transexuais, nós travestis, nós mães, nós pais, nós filhas e filhos, nós vovós, nós vovôs, nós parentes, nós conhecidos, nós cidadãos, nós humanos. Alguém que mata outra pessoa mata com ela toda a humanidade. A legitimidade existencial da humanidade é invalidado quando uma pessoa mata outra. Os motivos da morte de Lucas Fortuna se baseiam na crença em que pessoas que têm envolvimento amoroso com pessoas que, por acaso, tenham o mesmo sexo, são seres inferiores e que - essa é a conclusão lógica da fatalidade moral - por serem inferiores, podem ser mortos e, na verdade, merecem a morte. A morte é a única resposta razoável para um ser que não "é" como "eu", pensa(m) o(s) agressor(es) de Lucas Fortuna. Ou pensariam, se parassem para averiguar suas razões. Mas não, isso não acontece. O que acontece é o ato em si como um ato consumado. Um ato que desde o seu princípio se orienta para a sua consumação. Um ato de ódio. É de ódio que estamos falando. Um ódio estranho aos misantropos, um ódio estranho aos críticos da razão. Um ódio grandioso e aterrorizante, calmo, frio, construtor de campos de concentração, de muros da vergonha, pichador de frases de ódio em portas de banheiro público ou em sites de extrema-direita.

Não gostaria de repetir as velhas perguntas "Até quando?", "Quantos mais?" ou  "Por quê?". Não gostaria de usar o sofrimento de pessoa nenhuma para enriquecer meu português e transformar essas pessoas em bandeiras. Pessoas não são bandeiras. Não gostaria de dizer que não há nada a dizer e que "o resto é silêncio." Gostaria apenas de lamentar. Lamentar, lamentar, pois eu não serei intimidado, eu não serei aterrorizado pelo Ódio. Ele não pode me matar. Lamentar, pois de lamento precisa toda dor. E @s Lucas Fortuna de ontem, de amanhã e de agora são a dor do meio do caminho. Lamentar, amigos, mas não se calar. O Ódio acredita que um dia poderá destruir a tudo o que odeia. Não percebe que seu sucesso redunda em sua autodestruição, não percebe que é desnergia, que se anula enquanto se realiza. Ele quer nos matar a todos, mesmo que isso signifique não ter mais a quem odiar e com isso, acabar como as fumaça dos cigarros. Mas ele não pode nos matar, embora possa nos matar. O resto não é silêncio. O Ódio ouvirá nossos gritos.

Agradeço   sinceramente meu amigo Maik Wanderson pelo apoio logístico 
e moral para este texto.

sábado, 17 de novembro de 2012

Ó meu povo, que te fiz eu?

O my people, what have I done unto thee
T. S. Eliot, Ash -Wednesday



A imagem de cima é uma das de um ataque de Israel à Faixa de Gaza no ano da graça de 2009. É certo dizer que este texto é apenas um, um e um pequeno e desimportante, entre milhares de outros, nas nossas milhares de línguas. O corpo da criança expõe os efeitos do uso de fósforo branco como arma de guerra. Tais efeitos são desastrosos. O fósforo corrói a matéria orgânica e não pára de queimar mesmo que a vítima morra. Em 13 de janeiro de 1945, a cidade alemã de Dresden sofreu um ataque semelhante, o que levou Genebra a proibir o uso desse tipo de armas (as químicas) em guerras. Essa regra não está sendo observada, como muitas  outras. No entanto, além das tragédias ambientais e diplomáticas, Gaza representa uma tragédia moral cujas características específicas nos permitem chamá-la de "sem precedentes." Um Estado ultra-armado que simplesmente está chacinando um povo. 

Bom, não há muito o que dizer. Este texto não vai parar o massacre. Os milhares de outros textos não vão parar o massacre. Nossos líderes não o vão, nem nossas ongs, nem nada. Gaza vai morrer assim como morreram os judeus e os ciganos em 1944, os armênios em 1915, os incas em 1533. Outros massacres, outros genocídios, outras mortes cruéis e repentinas acontecerão sem que ninguém possa fazer nada. E eu e você e nós todos teremos que conviver com isso pelos restos de nossas vidas. Éramos responsáveis, mas nada sobrou.

No entanto, a história e o futuro e todos esses nomes de pompa lembrarão Israel não como o símbolo do renascimento e da tolerância e do amor universal entre os povos, mas como o monstro de poder hipertrofiado cujas garras rasgaram o sonho que lhe deu nascimento. Não importa quantos israelenses postem fotos pró-Palestina nem quantas organizações pela paz argumentem, argumentem, argumentem, mesmo provando a impotência e a inutilidade dos raciocínios bem-formados contra a força grandiloquente do poder. Não importa. Um sonho morreu hoje.

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Menos aula de religião, mais aula de educação sexual


De ontem pra hoje, uma foto que eu compartilhei no fb deu muito o que falar. Nela, dois caras seguram duas plaquinhas, que dizem "Educação sexual para não abortar" e "Aborto legal para não morrer. Já!". Deu muito o que falar porque três de meus amigos começaram uma grande discussão, grande mesmo, que, apesar de seu resultado catastrófico, suscitou algumas questões interessantes sobre aborto. Apesar disso, porém, quero me deter na primeira frase, a qual fala da mesma realidade que a discussão sobre o aborto e sua legalização e diz respeito à nossa sociedade de uma forma que a maioria das pessoas parece ignorar. Gente, precisamos falar de sexo com nossos adolescentes. Enquanto for tabu, será um problema. 

Não me esqueço de uma velha lenda urbana que circulava nas escolas da minha cidade na época da minha quarta série. Um professor, de alguma escola - ninguém sabe qual - tinha sido demitido sumariamente porque tinha ensinado seus alunos a como por uma camisinha, usando uma banana, na aula de ciências. Era sensacional, quase proibido, saber daquela história para a gente. A palavra camisinha fazia todo mundo rir envergonhado. Hoje, eu penso. Eu nunca tive uma única aula de educação sexual. Não conheço nenhum colégio da minha época que tivesse, e olha que isso faz menos de quinze anos. A necessidade de naturalizar o sexo me parece tão óbvia que eu realmente me sinto um completo idiota por ter que advogar a seu respeito. A educação sexual me parece tão fundamentalmente justificada... Mas a gente é um povo que adora sexo, adora ver sexo na tv, mesmo com as crianças na sala, adora fazer sexo, adora a indústria do sexo e, ao mesmo tempo, tem vergonha de falar abertamente sobre sexo. Como assunto, aliás, o sexo só aparecerá clandestinamente em círculos paritários: homens, mulheres, gays, lésbicas. E sempre associado a uma prática ritual retida aos adultos; nunca como uma característica biológica que começa a maturar com a puberdade.

E então me aparece, no mesmo ritmo, outro problema. Ao mesmo tempo em que não damos lições de educação sexual com seus conceitos básicos como gênero, sexualidade, orientação sexual, gravidez, libido, dsts, a gente dá aula de religião a esses mesmos adolescentes. Tipo, ensina-se qual o sentido teológico da rosa mística  no catolicismo, mas não se ensina como prevenir uma gravidez. Que tipo de educação é esse? O Estado autoproclamado laico do Brasil admite uma concordata com a teocracia mais antiga do mundo, aceita que parlamentos estaduais autorizem o ensino confessional em suas escolas, olha na boa poder falar de Jesus Cristo e não de Zé Pilintra, Ogun, Alá ou Zaratustra. O resumo é: nós ensinamos religião, ensinamos religião de uma maneira a meu ver completamente equivocada, transformando a sala de aula num tipo de continuação de templos, incentivamos a intolerância com a diferença e, na hora de falar a essas pessoas de uma parte muito importante da vida delas, que pode arruinar ou elevar essas vidas, a gente fecha os olhos e a boca e tapa os ouvidos. Coisas como achar que não se pode discutir religião e tal tem alimentado muito a força de 
muitos tabus, sabe gente? Voltando ao assunto do aborto, olha só: a gente impede que a menina saiba como por uma camisinha, impede ela de saber que existem pílulas que impedem a gravidez, pílulas do dia seguinte, ensina a ela que se ela engravida, é uma responsabilidade sagrada, pisa no pescoço dessa menina com pressão, deveres além daqueles dos meninos, muito além, culpa ela pela queda de seu homem, culpa ela por tudo: e depois, quando ela morre de hemorragia numa casa de aborto clandestina, a gente olha com dureza, suspira e pensa: eu acho é pouco.

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

o mundo

Em seu livro The Human Condition, Hannah Arendt descreve world como a criação coletiva e histórica de todos os humanos em vista a sobrevivência do gênero humano. World é o produto da linguagem humana concretizado pelo ato de fala e persiste no tempo através da história. Quando nos tornamos conscientes de nós mesmos, em algum ponto nebuloso do longínquo passado, world surgiu e, contra os poderes titânicos e arrasadores da natureza, world raises, no intuito de defender os frágeis humanos desses hecatónquiros arrasadores, cujo líder maior é a imprevisibilidade - o maior agente da orfandade humana. Sem world nada mais seríamos do que pedaços de carne conscientes de sua própria putrefação - não que não o sejamos - mas sem nenhum chão para por os pés ou nenhum céu para contemplarem os olhos. Estaríamos entregues ao nada sem esse ato de fala. Mas nosso modo de vida impede isso. Wor(life)d; world. É um conceito muito verdadeiro e muito apropriado, a meu ver. No entanto, eu o considero intraduzível para o português.

Na medida em que world admite para si a fragilidade da ação falaz humana, mundo é todo pulsão telúrica, o mundo é grandiosidade, inaliquilabilidade e espanto. Mundo é algo essencialmente não humano, arredia, localizado fora do coração do homem. O mundo é o outro do homem, o mundo é contra o qual se ergue o world arendtiano. O mundo é a concretização mais absoluta do ser, pois é e não é consciente disso. Nós, que pensamos o ser, pensamo-no pelas frinchas do nada abertas pela nossa consciência. Se Arendt temia que sem world os humanos se aniquilariam no nada, é porque sem o world estamos entregues à feroz tudidade do mundo. O tudo é tão tudo e tão integralmente tudo que redunda em nada para a sede humana de lugar. O mundo não é lugar; o mundo é nada; o tudo é nada. Para nossa mente, apenas um diamante rosa choque no turbilhão azul do mundo, tudo e nada são apenas conceitos que se contemplam e se completam. Fora da mente, eles não fazem sentido. Fora da mente, não há uma coisa como sentido. Tudo e nada são apenas modos de compreender toda a energia que as mentes humanos captam desde seu surgimento até seu desaparecimento. Jamais sequer suspeitaremos do que acontece fora das nossas mentes.

A mente é o produto de movimento de autoconsciência do cérebro, logo, é também um ato de fala. As mentes ao redor do mundo são todas atos de fala e se reconhecem umas às outras por atos de fala. Tudo o que vier depois da mente, ou seja, tudo é um ato de fala, já que toda a realidade é um condicionamento do que poderíamos chamar de "Realidade" aos meios como as nossas mentes captam a realidade. Nossas cores, nossos sons, nossa noção de profundidade, altura, tempo e espaço, eu, você, valores, verdades: atos da protofala do momento de autoconsciência de nossas vidas cerebrais. O mundo é o que está fora da mente e que só chega à mente de uma maneira absolutamente arbitrária - os arbítrios da evolução que nos legou nossa visão, nossa audição, nosso tato. Quantos mundos não passam à nossa revelia pela cabeça de um morcego?

As cifras dizem que estamos no ponto cinzento de sete bilhões de pessoas. Sete bilhões de mentes. Das geleiras da Islândia aos contrafortes do Kilimanjaro, das estepes da Rússia aos sertões do Brasil, da poluição visual insuportável de Londres à vista insuportavelmente grande da Micronésia, as nossas mentes se auto-articulam numa luta incessante de permanência no ser. Como pequenos átomos de hidrogênio azuis que teimam em não se converter em átomos róseos de hélio, nossas mentes se inserem no mundo como as pontas afiadas de facas que rasgam os músculos de uma vaca. A diferença é que o mundo é indiferente e a dor é de nossa mentes. Existir redunda em estar dolorido. Somos sete bilhões de cérebros machucados que persistem no ser até o dia em que o ser as vença, de algum modo, até que o mundo as vença. O que sobra entre uma derrota/vitória e outra é world. Por isso acho que são termos intraduzíveis.


quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Honestidade intelectual, uma saída para tempos sem saída


Recentemente, li o romance autobiográfico de Reinaldo Arenas Antes que anoiteça e, além do prazer estético proporcionado pela obra em si assim como as reflexões e refutações políticas oriundas da realidade a que a obra se refere, um detalhe me chamou a atenção e acho que ele poderia ser útil para alguns problemas do nosso tempo. A partir de uma parte da história, o autor-personagem aludia às figuras de Virgilio Piñeira e José Lezama Lima, dois dos mais importantes escritores e pensadores da América Latina. Segundo Arenas, os dois compartilhavam de um traço de caráter muito importante e de algum modo maior que as diferenças que os dividiam. Piñeira era profundamente ateu e Lezama Lima profundamente católico. No entanto, eram amigos. Segundo Arenas, o que garantia a genuinidade dessa relação era aquele traço em comum, a honestidade que ambos mantinham sob todo seus pensamentos, a linguagem que os unia mais, até, do que a homossexualidade em comum. Com isso, eu pensei em como a honestidade intelectual diz respeito ao nosso tempo e ao nosso mundo; tipo, como ela pode fazer toda a diferença.

O mundo e o Brasil estão a cada dia conhecendo realidades cada vez mais complexas e que, por isso, demandam reflexões tão complexas quanto. O universo dos bons e dos maus parece se empalidecer diante dos conflitos armados ao redor do mundo, no problema entre religiões e laicidade, nas questões inerentes ao machismo, ao racismo, aos problemas ambientais, políticos e sociais que parecem unir no nosso planetinha azul a densidade demográfica de problemas de um milhão de mundos. Como conviver como isso? Que lados escolher? Isto é, que garantia temos de estar fazendo o que é certo, considerando que há uma coisa certa a ser feita?

A honestidade intelectual me parece ser uma boa saída para esse mundo sempre mais em apuros. É algo como a capacidade de admitir que se errou. Serve tanto para problemas quotidianos, familiares ou de menor importância, como para grandes questões inerentes a toda à humanidade. No campo familiar, a honestidade intelectual pode me livrar de cometer uma injustiça contra meus filhos ou meus pais, pois, se eu perceber que errei e se admitir que errei, poderei consertar esse erro. No terreno de discussões filosóficas e mesmo religiosas, algo como admitir que houve uma contradição dentro do pensamento e com isso prosseguir com o movimento do pensamento enquanto um movimento verdadeiro, genuíno, isto é, que não se engana a si mesmo, que tem uma convicção em si mesmo.

Enquanto pessoa histórica, eu sou gay e agnóstico. Isso não me impede, no entanto, de ter amigos, verdadeiros, heterossexuais e religiosos. Acho que todos estamos metidos num mesmo mundo e esse mundo, enquanto tal e enquanto lugar de nós mesmos, apresenta muitas, muitas complexidades. Não podemos saber se certas coisas são acertadas ou não, justas ou não, e nossa única aposta é a aposta, o palpite. Não nos livra dos erros, mas admitir que tudo o que temos são apenas palpites nos livra do erro de acreditarmos que podemos não errar. Errar tão natural e costumeiro quanto respirar. Eu posso estar errado, você pode estar errado. Errar não é um problema muito grande. O problema realmente grande é saber que errei e não admitir isso e continuar fazendo o erro. Por exemplo, perceber que a pena de morte não reduz a criminalidade de um lugar e ainda assim insistir nela como uma punição social para os crimes dessa comunidade. Perceber que obrigar as pessoas a calarem a boca causa muito mais problema e muita mais dor do que não e, apesar disso, continuar como se nada estivesse sendo feito de errado.

Como Leibniz diz, o mundo é uma cidade e nós somos seus transeuntes. Uma cidade não precisa ser muito grande pra você se perder nela. O mundo é a maior e mais inefável de todas as cidades. Como não se perder uma vez ou duas? Ou muitas? Acho muita pretensão achar que se estar certo. No entanto, todos precisamos nessa pretensão para viver a vida. Não é essa pretensão que é nociva; é nociva a pretensão de sempre estar certo. Sempre é tempo demais e a gente é ser de menos. 

Meu intuito não é sugerir que a honestidade intelectual ou, como podemos chamar, o compromisso com as regras do jogo, seja o remédio para os sete bilhões vezes sete problemas da humanidade. Claro que não é. A água é um remédio para a sede dos flagelados da sede, animais e plantas, muito mais eficaz do que a honestidade intelectual. O fechamento de fábricas de armas e sua substituição por escolas e bibliotecas é muito mais eficaz para a paz mundial e a compreensão entre os povos do que honestidade intelectual. O devido respeito aos artistas e aos esportistas é muito mais eficaz para a auto-estima de um país do que honestidade intelectual. No entanto, quando somos honesto conosco mesmos e com os outros à nossa volta, estamos muito mais perto de resolver esses problemas do que poderíamos imaginar. Claro que sempre vai haver gente que não se preocupa com isso e que não estão nem aí. Mas a questão é: Por que essas pessoas devem dominar nossas cidades, nossos países e nosso mundo, e não nós, que estamos conscientes do nosso maior problema de fábrica: a capacidade de errar?